Archive for Fevereiro, 2008

A Madeira no Século XVIII

18 Fevereiro, 2008

Narrativa de Cook, in Heraldo da Madeira, Ano II, n.º 462, Funchal, 8 de Março de 1906, pág. 1.

heraldo1903.jpg

Por acharmos curioso e de bastante interesse o capitulo relativo à Madeira, publicado na Relação da viagem feita à roda do mundo nos anos de 1768,1769, 1770 e 1771, por James Cook, comandante do navio da marinha real inglesa, o Endeavour, encetamos hoje a publicação do capitulo a que nos referimos que é tanto, mais curioso, quanto é certo que fornece informações até certo ponto circunstanciadas sobre vários assuntos de que se não ocuparam outros autores do século XVIII

A 12 de Setembro de 1768 avistámos as ilhas do Porto Santo e da Madeira, e no dia imediato ancorávamos na baia do Funchal.

Durante a noite, a pequena ancora de que nos havíamos servido para fundear, desprendeu se da corrente, devido ao pouco cuidado com que tinha sido amarrada, o que nos obrigou logo pela manhã ao trabalho de levantei-a do fundo mar, servindo nos para isso de um bote. Na ocasião em que ela era içada do bote para o navio, o contra-mestre Mr. Weir, foi lançado ao mar pelo cabo por que puxava, e arrastado para o fundo juntamente com a ancora. Apesar da gente de bordo que assistira ao desastre ter retirado a mesma ancora com a maior prontidão possível, quando o infeliz contra-mestre voltou à superfície da agua, embaraçado no cabo, era já cadáver.

A ilha da Madeira olhada do mar oferece um lindo aspecto; os flancos das colinas acham se cobertos de vinhas perfeitamente verdes quase até à altura em que é possível distinguir-se com a vista os objectos, enquanto que todos os outros vegetais aparecem inteiramente requeimados, excepto nos pontos, as sombreados pelas mesmas vinhas ou aqui e além nas margens dos regatos.

A 13, pelas 11 horas da manhã, um bote chamado pelos nossos navegadores product boat, veio a bordo da parte dos oficiais da repartição de saúde, sem a licença dos quais se não permitte desembarcar. Logo que obtivemos essa licença desembarcámos no Funchal, capital da ilha, partindo imediatamente para casa de Mr. Cheap, cônsul inglês e um dos mais considerados negociantes da localidade, o qual nos recebeu com a amizade de um irmão e a generosidade de um príncipe. Quis a todo o transe que residíssemos em sua casa, onde nos rodeou de todas as comodidades possíveis, ao mesmo tempo que obtinha para Mr. Banks e o dr. Solander a necessária licença para procurarem todas as curiosidades naturais dignas de atenção. Empregou vários homens em apanhar peixes e colher conchas, que por falta de tempo não teriam podido obter por si próprios, e forneceu lhes cavalos e guias para visitarem diferentes partes da ilha.

Apesar de todas estas facilidades, as suas excursões raras vezes se estenderem além de três milhas do Funchal, isto pelo motivo de apenas terem permanecido em terra cinco dias, um dos quais foi destinado a receber em casa de Mr. Cheap a visita do governador. De resto a estação era a menos própria do ano, tanto, para a colheita de plantas como para a de insectos. Mr. Heberden, o primeiro medico da ilha e irmão do dr. Heberden, de Londres, ofereceu-lhes todavia algumas plantas em flor, bem como alguns exemplares que possuía colhidos na época própria e uma copia das suas observações botânicas, compreendendo entre outras coisas uma descrição das arvores existentes no país.

Mr. Banks quis obter alguns esclarecimentos sobre a espécie de madeira que vai desta ilha para Inglaterra e a que os nossos comerciantes e operários chamam mogno da Madeira. Soube que se não exportava da ilha nenhuma madeira com este nome, mas reconheceu uma arvore chamada pelos insulares vinhatico que é o Laarus indica de Linneu, cuja madeira difere á vista muito pouco da do mogno. O dr. Heberden possue moveis em que o vinhatico e o mogno se acham associados e em que é dificil distingui-los um do outro. Nota se unicamente, examinando-os com atenção, que a cor do vinhatsco é um pouco menos carregada quê a do mogno, sendo, pois, bastante provável que a madeira conhecida em Inglaterra pela designação de mogno da Madeira seja a do vinhatico.

Há fortes razões para crer que toda a ilha saísse antigamente do seio das aguas pela explosão de um vulcão. Todas as pedras, até nos seus mais insignificantes fragmentos, parecem ter sido queimadas, e a espécie de areia que cobre o terreno não é outra coisa mais do que uma cinza. Apesar de só havermos visitado uma pequena parte do pais, disseram nos os habitantes que o resto da ilha é exactamente da mesma natureza.

“500 Anos” edita guia

15 Fevereiro, 2008

13_89695jm.jpgO “Guia dos Monumentos do Funchal” — a quarta obra editada pela Comissão Executiva Funchal 500 Anos— foi ontem lançada no Palácio de São Lourenço.

Coordenada por Diva Freitas, arquitecta e directora dos Serviços de Património da Direcção Regional de Assuntos Culturais (DRAC), esta obra é o resultado de um trabalho de muitos anos que envolveu vários profissionais e que dá a conhecer a riqueza patrimonial da urbe.

Das publicações já editadas no âmbito das comemorações do V.º Centenário da Cidade do Funchal, Pedro Calado considerou o “Guia dos Monumentos do Funchal”como a obra mais importante, esperando que esta tenha utilidade prática, ou seja, que as pessoas visitem os espaços referenciados.

Também João Henrique Silva, director regional dos Assuntos Culturais, em representação de Diva Freitas, sublinhou a importância do livro, ontem lançado, considerando ser«um instrumento de conhecimento e de fruição», um testemunho que a cidade do Funchal é «uma realidade viva e evolutiva.»

Para Monteiro Diniz, representante da República para a Madeira, «um monumento não pertence a uma dada colectividade», dando como exemplos o Mosteiro dos Jerónimos e o Palácio de São Lourenço, que, na sua óptica, «são património da portucalidade».

«Os monumentos não pertencem ao Funchal. Os monumentos e a começar pelo Palácio de São Lourenço são antes de tudo património da portucalidade. Pertencem a todas as gerações portuguesas que estiveram na origem da sua edificação», considerou.

«Podem os madeirenses estar tranquilos, porque enquanto eu for o ocupante inquilino ou o fiel depositário… (referindo-se ao Palácio) eu saberei preservar e conservar e, quando partir, entregá-lo em condições porventura superiores àquelas que encontrei», disse.

«Eu não resido no palácio, ao contrário do que se possa pensar. Eu resido nos anexos, sem condições de verdadeira habitalidade, onde não entra a luz, mesmo em plenos dias de Verão é preciso ter a luz eléctrica acesa», acrescentou Monteiro Diniz.

O “Guia dos Monumentos do Funchal” é o segundo volume da colecção de guias patrimoniais. O primeiro foi, recorde-se, o Guia dos Museus do Funchal, de Francisco Clode. Em Março próximo, serão lançados “Funchal, 500 Anos de História como Cidade”, de Rui Carita, e o “Guia dos Jardins do Funchal”, de Raimundo Quintal.

JM 15/02/2008

A Batata (Semilha)

13 Fevereiro, 2008

A batata ordinária

batata.jpg— A que, nos parece, só aqui na Madeira se chama semilha, — veio-nos da América do Sul ou, antes, do Chile e pertence à família das solâneas, tão fecunda em venenos violentos. Contam-se perto, da mil variedades de semilhas, de cores, formas e tamanhos diversíssimos, como é fácil de verificar. Todavia, as, que têm a casca vermelha ou amarela (hollandas, vitelottes etc.) são as mais farinhentas e as mais delicadas ao paladar.

Havia já mais de um século que as populações pobres da Irlanda e da Alemanha se sustentavam deste tubérculo disputado aos porcos, quando o ilustre e benemérito Parmentier conseguiu, a muito custo, como é sabido, aclimá-Io à mesa das franceses.

Hoje, a produção em França, excede anualmente 203 milhões de hectolitros, e a semilha ocupa mais de um milhão de hectares no solo francês. É tão grande o lugar que ela tem actualmente, na alimentação publica da França, que se não pode imaginar o que seria das três quartas partes da população daquele país, no caso (felizmente não provável) de desaparecer este alimento primacial. Nos países Vizinhos (Inglaterra, Holanda, Alemanha) a semilha é, talvez, ainda mais apreciada, visto que substitui quase inteiramente o pão. Todos sabem que, em 1847, uma epidemia grave, gare atacou repentinamente a semilha, determinou a morte da milhares de irlandeses, os quais, privados assim de um alimento nacional, sucumbiam à mingua e ao tifo, consequência natural dessa privação. Inversamente, pôde afirmar-se que, durante o cerco de Paris, na guerra franco-alemã de 1870, foi a semilha que salvou muitos milhares de existências.

A grande vantagem – «desta messe subterrânea que as calamidades do céu não atingem» (Verey), é que medra em todos os climas, nos tropicais como nos siberianos, e nas terras ainda as mais estéreis O princípio feculento que ela contém, — um amido solubilíssimo e extraordináriamente assimilável, — análogo ao principio amiláceo das gramíneas, torna-a excessivamente digestiva, Veja-se o papel que a semilha representa na alimentação das crianças e das amas de leite, assim como na composição das tapiocas indígenas e das farinhas especiais, a que a publicidade atribui de tão bom grado as qualidades mais misteriosas; note se o que por ai se faz de numerosas e fáceis preparações culinárias, tendo por base a semilha, e que nós somemos todos o» dias sem aos aborrecermos e sem nos enfastiarmos, e avaliar-se-á assim o lugar que esta preciosa solânea ocupa na alimentação contemporânea.

Deu-se à semilha a denominação de pão dos pobres. Esta designação é tanto mais errónea, quanto é verdade que a semilha, se é rica em principias feculentos, não contém o elemento azotado (glúten) que o pão contém; e só é alimento completo, como este, quando se lhe junta um pouco de toucinho ou de carne gorda. O puré de semilha e a semilha cosida na agua constituem os seus dois modos de preparação maia higiénicos, porque são os mais digestivos; com tanto que se comam quentes. A semilha frita é pesada e indigesta para os estômagos delicados.

É importante que se não aproveitam, na alimentação, senão semilhas bem maduras. A semilha ainda verde ou grelada é muito perigosa. Atribuem-se lhe, com multa razão, inúmeros casos de gastrite, eólicas e até sintomas de disenteria. Estes fenómenos são envenenamento são devidos à acção virosa da solanina, descoberta em 1825. pelo farmacêutica Desfosses (de Besançon), que aperfeiçoou condignamente pelos seus trabalhos a obra filantrópica de Parmentier. Demais — seria injustiça esquecê-lo – foi a antiga Academia da Besançon que suscitou a imortal descoberta de Parmentier, propondo» em 1871, a seguinte tese de concurso «dos vegetais que em caso de penúria e fome publicas, se poderiam substituir aos que se empregam vulgarmente para sustento do homem…»

Mas basta de digressões. Amadores de primicias, desconfiai sempre das semilhas muito novas. Comei este tubérculo bem maduro, e nunca tereis indigestões. Todavia, o abuso da semilha mesmo madura, sobrecarrega e dilata o estômago e causa finalmente a obstrução do ventre, sobretudo aos habitantes das cidades, cujas funções digestivas são frequentemente imperfeitas, tanto mais que a semilha, como já demonstrámos, não é um alimento completo, do que resulta que o seu uso exclusivo acaba por debilitar e inferiorizar o individuo, e até a raça. Para nos convencermos disto, basta comparar a irlandês com o escocês e o inglês.

Poder-se-á permitir a semilha aos dias bélicos? Sem duvida, e não há ainda muitos anos que um médico francês muito distinto, sustentou esta tese numa memória que foi premiada pela Sociedade de medicina de Anvers.

A semilha contém, é certo, um elemento feculento capaz de se transformar em açúcar. Mas contém também uma certa quantidade de sais de potassa, cuja absorção é muito útil aos diabéticos. De acordo com outros clínicos, alias, bastante severos aconselhámos, pois, aos diabéticos o uso da semilha cozida, que tem a grande vantagem de permitir a supressão do pão, mesmo o de glúten, que contém sempre (a analise o demonstra) 25 a 40 por 100 de princípios amilaceos, que não sucede com a semilha, ainda a mais farinhenta. Graças igualmente aos seus princípios potássicos, esta solânea deve fazer parte do regime dos gotosos, dos biliozos e dos que sofrem de areias. A semilha preenche um papel importante na higiene naval, como preventivo do escorbuto, que, somo os leitores sabem, é causado, em parte, pela pobreza dos sais de potassa do sangue: «desde que a semilha se generalizou, escreve Baunett, o escorbuto desapareceu».

Ao lado da semilha vêm colocar-se três sucedâneos bromatotogicos: a batata doce, o topinambor e o inhame, dos quais diremos algumas palavras.

A batata doce, que pertence a um grupo botânico completamento diferente do da semilha, fornece um alimento muito vulgar nesta ilha e em geral nos poisas tropicais; o seu gosto saboroso parece-se com o da castanha assada e as suas propriedades são muito análogas às da semilha.

O topinambor ou batata do Brasil, é um helianco, como o girassol dos nossos jardins. O seu gosto, viscoso e adocicado, tem bastante analogia com o das alcachofras. Múutiz e Girard chamaram recentemente a atenção dos governes para a importância da sua cultura e fizeram muito bem. O topinambor é tão nutriente como a semilha e a batata doce, porém menos digestível e mais flatulento que estas. O nitrato de potassa, que esta planta contém numa quantidade muito apreciável, confere-lhe, além disso, propriedades diuréticas pronunciadíssimas e indica-lhe naturalmente o seu lugar na chamada, — medicação alcalina.

O inhame da China, muito comum também nesta ilha, e que os pretos da África e da índia cozinham sob a cinza é uma raiz bulbosa, muito nutritiva e agradável ao paladar; sérios obstáculos, porém, se opõem à sua cultura na Europa.

Artigo de Nuno Teixeira, publicado no dia 9 de Março de 1919, no Diário de Notícias da Madeira.

Harpa Madeirense

11 Fevereiro, 2008

11_02_2008.jpgObra de Luís de Ornelas Pinto Coelho, que reúne as composições poéticas do autor sobre a Ilha da Madeira, Portugal e Brasil.

A MADEIRA AO DR. PEDRO JÚLIO VIEIRA

Pátria, ao pobre caminheiro
no seu dia derradeiro
da-lhe o jazigo final,

Do oceano entre, as vagas frementes,
onde o ceu mais se tinge de azul,
o eo’as auras suaves, cadentes, vem as
ondas rolando do sul,

tem seu throuo a Madeira, orgulhosa,
ergue a fronte a rainha do mar, o na
escuma das aguas, vaidosa, vae seu
manto de flores banhar.

Nas montanhas, cobertas de relva,
brotam jorros de puro crystal, ha
cardumes de rosas na selva, ha
gorgeios perennes no vali’.

De boninas o campo se veste,
de oiro é o sol, que o espaço allumia,
mil encantos de noite reveste,
o luar, mais formoso que o dia.

Pelas veigas, ridentes, amenas, se
matisa de flores o chão, onde as
moças, nas tardes serenas, v
ão do amor suspirar a canção.

Eis aqui minha terra odorante,
primavera de eterno brilhar, do
occidente qual perla gigante,
engastada na face do mar.

Quem viveu nestes montes agrestes,
quem sonhou seus amores aqui, nunca
olvida os encantos celestes d’este mar,
d’estes bosques, de ti!
(…), in Harpa Madeirense, pp. 5-7

BD – NESOS

5 Fevereiro, 2008

Diário de Notícias da Madeira, de 1916 a 1918.

Ver BD NESOS

– VIEIRA, Alberto, “As Ilhas As Rotas Oceânicas, Os Descobrimentos e o Brasil“, in Seminário Nacional Sobre Ilhas Costeiras e Ilhas Oceânicas: Conceitos, Direitos e Usos (2002), Brasil, 2006, pp. 111-198.

– PIAZZA, Walter Fernando, “A Carreira da Índia Atinge a capitania da Ilha de Santa Catarina?“, in Seminário Nacional Sobre Ilhas Costeiras e Ilhas Oceânicas: Conceitos, Direitos e Usos (2002), Brasil, 2006, pp. 199-204.

– FARIA DE ASSIS, Angelo Adriano, “Cristãos-Novos, Criptojudeus e Inquisição nas Ilhas do Atlântico: Aspectos da resistência judaica e da religiosidade no Mundo Português – séculos XVI-XVII“, in Seminário Nacional Sobre Ilhas Costeiras e Ilhas Oceânicas: Conceitos, Direitos e Usos (2002), Brasil, 2006, pp. 205-218.

– LINS, Hoyédo Nunes, “Insularidades na Economia-Mundo Moderna: Interações entre local e o global“, in Seminário Nacional Sobre Ilhas Costeiras e Ilhas Oceânicas: Conceitos, Direitos e Usos (2002), Brasil, 2006, pp. 219-232.

PINTO COELHO, Luís de Ornelas (1843-1920)

4 Fevereiro, 2008

00_5.jpgNasceu na freguesia de São Pedro do Funchal, a 21 de Fevereiro de 1843. Filho de Joaquim Pinto Coelho e de D. Maria Carlota de Ornelas Pinto Coelho.
Para além de poeta foi jornalista na ilha da Madeira. Desempenhou o cargo de Chefe do Corpo da Polícia Civil, e o de redactor do «Diário de Notícias» do Funchal. Escreveu ainda para «O Povo» e para a «Imprensa Livre».
Esta representado nos espicilégios a «Harpa Madeirense» (1896) e «Flores da madeira» (1899). Publicou ainda as «Folhas Dispersas» (1899) e o folheto em verso, a Reacção e o Progresso. Durante a sua estadia no Brasil, redigiu diversas poesias para o Diário do Grão Pará.
Luís Pinto Coelho teve entre nós o primado da poesia.
Morreu no Funchal a 17 de Março de 1920.
Elucidário Madeirense, vol. III, p. 79.