A Batata (Semilha)

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A batata ordinária

batata.jpg— A que, nos parece, só aqui na Madeira se chama semilha, — veio-nos da América do Sul ou, antes, do Chile e pertence à família das solâneas, tão fecunda em venenos violentos. Contam-se perto, da mil variedades de semilhas, de cores, formas e tamanhos diversíssimos, como é fácil de verificar. Todavia, as, que têm a casca vermelha ou amarela (hollandas, vitelottes etc.) são as mais farinhentas e as mais delicadas ao paladar.

Havia já mais de um século que as populações pobres da Irlanda e da Alemanha se sustentavam deste tubérculo disputado aos porcos, quando o ilustre e benemérito Parmentier conseguiu, a muito custo, como é sabido, aclimá-Io à mesa das franceses.

Hoje, a produção em França, excede anualmente 203 milhões de hectolitros, e a semilha ocupa mais de um milhão de hectares no solo francês. É tão grande o lugar que ela tem actualmente, na alimentação publica da França, que se não pode imaginar o que seria das três quartas partes da população daquele país, no caso (felizmente não provável) de desaparecer este alimento primacial. Nos países Vizinhos (Inglaterra, Holanda, Alemanha) a semilha é, talvez, ainda mais apreciada, visto que substitui quase inteiramente o pão. Todos sabem que, em 1847, uma epidemia grave, gare atacou repentinamente a semilha, determinou a morte da milhares de irlandeses, os quais, privados assim de um alimento nacional, sucumbiam à mingua e ao tifo, consequência natural dessa privação. Inversamente, pôde afirmar-se que, durante o cerco de Paris, na guerra franco-alemã de 1870, foi a semilha que salvou muitos milhares de existências.

A grande vantagem – «desta messe subterrânea que as calamidades do céu não atingem» (Verey), é que medra em todos os climas, nos tropicais como nos siberianos, e nas terras ainda as mais estéreis O princípio feculento que ela contém, — um amido solubilíssimo e extraordináriamente assimilável, — análogo ao principio amiláceo das gramíneas, torna-a excessivamente digestiva, Veja-se o papel que a semilha representa na alimentação das crianças e das amas de leite, assim como na composição das tapiocas indígenas e das farinhas especiais, a que a publicidade atribui de tão bom grado as qualidades mais misteriosas; note se o que por ai se faz de numerosas e fáceis preparações culinárias, tendo por base a semilha, e que nós somemos todos o» dias sem aos aborrecermos e sem nos enfastiarmos, e avaliar-se-á assim o lugar que esta preciosa solânea ocupa na alimentação contemporânea.

Deu-se à semilha a denominação de pão dos pobres. Esta designação é tanto mais errónea, quanto é verdade que a semilha, se é rica em principias feculentos, não contém o elemento azotado (glúten) que o pão contém; e só é alimento completo, como este, quando se lhe junta um pouco de toucinho ou de carne gorda. O puré de semilha e a semilha cosida na agua constituem os seus dois modos de preparação maia higiénicos, porque são os mais digestivos; com tanto que se comam quentes. A semilha frita é pesada e indigesta para os estômagos delicados.

É importante que se não aproveitam, na alimentação, senão semilhas bem maduras. A semilha ainda verde ou grelada é muito perigosa. Atribuem-se lhe, com multa razão, inúmeros casos de gastrite, eólicas e até sintomas de disenteria. Estes fenómenos são envenenamento são devidos à acção virosa da solanina, descoberta em 1825. pelo farmacêutica Desfosses (de Besançon), que aperfeiçoou condignamente pelos seus trabalhos a obra filantrópica de Parmentier. Demais — seria injustiça esquecê-lo – foi a antiga Academia da Besançon que suscitou a imortal descoberta de Parmentier, propondo» em 1871, a seguinte tese de concurso «dos vegetais que em caso de penúria e fome publicas, se poderiam substituir aos que se empregam vulgarmente para sustento do homem…»

Mas basta de digressões. Amadores de primicias, desconfiai sempre das semilhas muito novas. Comei este tubérculo bem maduro, e nunca tereis indigestões. Todavia, o abuso da semilha mesmo madura, sobrecarrega e dilata o estômago e causa finalmente a obstrução do ventre, sobretudo aos habitantes das cidades, cujas funções digestivas são frequentemente imperfeitas, tanto mais que a semilha, como já demonstrámos, não é um alimento completo, do que resulta que o seu uso exclusivo acaba por debilitar e inferiorizar o individuo, e até a raça. Para nos convencermos disto, basta comparar a irlandês com o escocês e o inglês.

Poder-se-á permitir a semilha aos dias bélicos? Sem duvida, e não há ainda muitos anos que um médico francês muito distinto, sustentou esta tese numa memória que foi premiada pela Sociedade de medicina de Anvers.

A semilha contém, é certo, um elemento feculento capaz de se transformar em açúcar. Mas contém também uma certa quantidade de sais de potassa, cuja absorção é muito útil aos diabéticos. De acordo com outros clínicos, alias, bastante severos aconselhámos, pois, aos diabéticos o uso da semilha cozida, que tem a grande vantagem de permitir a supressão do pão, mesmo o de glúten, que contém sempre (a analise o demonstra) 25 a 40 por 100 de princípios amilaceos, que não sucede com a semilha, ainda a mais farinhenta. Graças igualmente aos seus princípios potássicos, esta solânea deve fazer parte do regime dos gotosos, dos biliozos e dos que sofrem de areias. A semilha preenche um papel importante na higiene naval, como preventivo do escorbuto, que, somo os leitores sabem, é causado, em parte, pela pobreza dos sais de potassa do sangue: «desde que a semilha se generalizou, escreve Baunett, o escorbuto desapareceu».

Ao lado da semilha vêm colocar-se três sucedâneos bromatotogicos: a batata doce, o topinambor e o inhame, dos quais diremos algumas palavras.

A batata doce, que pertence a um grupo botânico completamento diferente do da semilha, fornece um alimento muito vulgar nesta ilha e em geral nos poisas tropicais; o seu gosto saboroso parece-se com o da castanha assada e as suas propriedades são muito análogas às da semilha.

O topinambor ou batata do Brasil, é um helianco, como o girassol dos nossos jardins. O seu gosto, viscoso e adocicado, tem bastante analogia com o das alcachofras. Múutiz e Girard chamaram recentemente a atenção dos governes para a importância da sua cultura e fizeram muito bem. O topinambor é tão nutriente como a semilha e a batata doce, porém menos digestível e mais flatulento que estas. O nitrato de potassa, que esta planta contém numa quantidade muito apreciável, confere-lhe, além disso, propriedades diuréticas pronunciadíssimas e indica-lhe naturalmente o seu lugar na chamada, — medicação alcalina.

O inhame da China, muito comum também nesta ilha, e que os pretos da África e da índia cozinham sob a cinza é uma raiz bulbosa, muito nutritiva e agradável ao paladar; sérios obstáculos, porém, se opõem à sua cultura na Europa.

Artigo de Nuno Teixeira, publicado no dia 9 de Março de 1919, no Diário de Notícias da Madeira.

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