A Madeira no Século XVIII

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Narrativa de Cook, in Heraldo da Madeira, Ano II, n.º 462, Funchal, 8 de Março de 1906, pág. 1.

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Por acharmos curioso e de bastante interesse o capitulo relativo à Madeira, publicado na Relação da viagem feita à roda do mundo nos anos de 1768,1769, 1770 e 1771, por James Cook, comandante do navio da marinha real inglesa, o Endeavour, encetamos hoje a publicação do capitulo a que nos referimos que é tanto, mais curioso, quanto é certo que fornece informações até certo ponto circunstanciadas sobre vários assuntos de que se não ocuparam outros autores do século XVIII

A 12 de Setembro de 1768 avistámos as ilhas do Porto Santo e da Madeira, e no dia imediato ancorávamos na baia do Funchal.

Durante a noite, a pequena ancora de que nos havíamos servido para fundear, desprendeu se da corrente, devido ao pouco cuidado com que tinha sido amarrada, o que nos obrigou logo pela manhã ao trabalho de levantei-a do fundo mar, servindo nos para isso de um bote. Na ocasião em que ela era içada do bote para o navio, o contra-mestre Mr. Weir, foi lançado ao mar pelo cabo por que puxava, e arrastado para o fundo juntamente com a ancora. Apesar da gente de bordo que assistira ao desastre ter retirado a mesma ancora com a maior prontidão possível, quando o infeliz contra-mestre voltou à superfície da agua, embaraçado no cabo, era já cadáver.

A ilha da Madeira olhada do mar oferece um lindo aspecto; os flancos das colinas acham se cobertos de vinhas perfeitamente verdes quase até à altura em que é possível distinguir-se com a vista os objectos, enquanto que todos os outros vegetais aparecem inteiramente requeimados, excepto nos pontos, as sombreados pelas mesmas vinhas ou aqui e além nas margens dos regatos.

A 13, pelas 11 horas da manhã, um bote chamado pelos nossos navegadores product boat, veio a bordo da parte dos oficiais da repartição de saúde, sem a licença dos quais se não permitte desembarcar. Logo que obtivemos essa licença desembarcámos no Funchal, capital da ilha, partindo imediatamente para casa de Mr. Cheap, cônsul inglês e um dos mais considerados negociantes da localidade, o qual nos recebeu com a amizade de um irmão e a generosidade de um príncipe. Quis a todo o transe que residíssemos em sua casa, onde nos rodeou de todas as comodidades possíveis, ao mesmo tempo que obtinha para Mr. Banks e o dr. Solander a necessária licença para procurarem todas as curiosidades naturais dignas de atenção. Empregou vários homens em apanhar peixes e colher conchas, que por falta de tempo não teriam podido obter por si próprios, e forneceu lhes cavalos e guias para visitarem diferentes partes da ilha.

Apesar de todas estas facilidades, as suas excursões raras vezes se estenderem além de três milhas do Funchal, isto pelo motivo de apenas terem permanecido em terra cinco dias, um dos quais foi destinado a receber em casa de Mr. Cheap a visita do governador. De resto a estação era a menos própria do ano, tanto, para a colheita de plantas como para a de insectos. Mr. Heberden, o primeiro medico da ilha e irmão do dr. Heberden, de Londres, ofereceu-lhes todavia algumas plantas em flor, bem como alguns exemplares que possuía colhidos na época própria e uma copia das suas observações botânicas, compreendendo entre outras coisas uma descrição das arvores existentes no país.

Mr. Banks quis obter alguns esclarecimentos sobre a espécie de madeira que vai desta ilha para Inglaterra e a que os nossos comerciantes e operários chamam mogno da Madeira. Soube que se não exportava da ilha nenhuma madeira com este nome, mas reconheceu uma arvore chamada pelos insulares vinhatico que é o Laarus indica de Linneu, cuja madeira difere á vista muito pouco da do mogno. O dr. Heberden possue moveis em que o vinhatico e o mogno se acham associados e em que é dificil distingui-los um do outro. Nota se unicamente, examinando-os com atenção, que a cor do vinhatsco é um pouco menos carregada quê a do mogno, sendo, pois, bastante provável que a madeira conhecida em Inglaterra pela designação de mogno da Madeira seja a do vinhatico.

Há fortes razões para crer que toda a ilha saísse antigamente do seio das aguas pela explosão de um vulcão. Todas as pedras, até nos seus mais insignificantes fragmentos, parecem ter sido queimadas, e a espécie de areia que cobre o terreno não é outra coisa mais do que uma cinza. Apesar de só havermos visitado uma pequena parte do pais, disseram nos os habitantes que o resto da ilha é exactamente da mesma natureza.

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3 Respostas to “A Madeira no Século XVIII”

  1. profeta90 Says:

    boa tarde, o que se passa com a página electrónica da NESOS? [www.nesos.net] não consigo aceder à base de dados.

  2. migcah Says:

    Olá,

    Também gostava de saber o que aconteceu ao magnífico site da NESOS?

    Miguel de Castro Henriques

  3. neco1946 Says:

    Boa tarde
    È de facto uma grande perda o desaparecimento da página da NESOS.
    O que terá passado? Se possível gostava de saber a razão.
    Os melhores cumprimentos
    Neco

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